Posicionamento da Coordenação Nacional do Coletivo de Entidades Negras sobre a Intervenção Militar no Rio de Janeiro

A Paraíso do Tuiuti fez uma das maiores manifestações políticas do Brasil no Carnaval de 2018, com repercussão em todos os veículos de mídia, nacionais e internacionais. Do ponto de vista midiático, os golpistas tomaram um susto. A Globo foi pega de surpresa quando teve que transmitir a realidade do golpe que orquestrou em formação de quadrilha com seus comparsas do Poder judiciário, do Ministério Público e de figuras políticas dos poderes Executivo e Legislativo que representam o capital neoliberal. Sambaram na cara da sociedade burguesa/racista deste país.

Mas o golpe não tem freio, não encontra barreiras, não se permite colocar limites. Por detrás das telas, os golpistas já maquinavam uma intervenção militar no Rio de Janeiro. Uma resposta rápida, justificada pela exposição midiática de assaltos aos moradores das Casas Grandes cariocas. Como se quem tivesse fome (leia-se as mais diversas fomes provocadas pelas desigualdades sociais) devesse observar a ostentação da burguesia acumuladora de capital e dos pseudoburgueses calados e apáticos, num estado de autofagia.

O que a “grande mídia” não mostrou foi a ação das polícias militares em diversos estados brasileiros, em que as pessoas carnavalizavam manifestações políticas, seja por meio de protestos planejados ou por meio da exposição da realidade, que por si só já protesta e requer mudanças. Foi o que aconteceu no Carnaval da Bahia, quando a Polícia Militar espancou, de forma generalizada, negros e negras (em sua maioria periféricos/as) que se encantavam com a sonoridade que toca nos guetos da cidade e que, com certeza, salvo quando no distanciamento dos camarotes, não agrada a burguesia. E o que esperar das polícias senão a defesa do capital?

O capital, este ente invisível de rastros visíveis e nefastos, fortemente representado nas instituições de poder (Executivo, Legislativo, Judiciário/Ministério Público e na “grande mídia”, o 4º Poder), já deixou a sua lição. Para o capital, pretos/as e periféricos/as não devem se manifestar.

Foto: Francisco Proner Ramos/Mídia NINJA

Para qualquer passo que derem, a resposta será a repressão violenta, com a falsa justificativa da legalidade das polícias em suas cruéis intervenções. Enquanto isso, as outras castas continuam a gozar dos benefícios dos supersalários e auxílios-moradias que, em um único mês, equivalem a muito mais do que 99% da população ganha durante anos de trabalho.

A luta de raça e classe continua a ser deflagrada e a direita branca e burguesa do Brasil tem avançado no processo de destruição da população negra e periférica. Colocar as Forças Armadas do Brasil nos morros é a saída mais fácil e mais alinhada ideologicamente à “Casa Grande”.

As favelas do Rio de Janeiro, bola da vez na linha de ataque das cinco famílias que concentram patrimônio equivalente à renda da metade mais pobre da população do Brasil, estão repletas de juventudes, homens e mulheres que vêm desenvolvendo tecnologias sociais de enfrentamento ao “crime” e sobretudo à ausência de uma outra vertente do Estado, vertente esta que tem nome e sobrenome.

Por meio do Judiciário, condenaram o presidente Lula com base em provas forjadas, com o único objetivo de impedir o maior líder do povo brasileiro de entrar na disputa eleitoral e, assim, não concretizar a vontade da população brasileira – fazer de Lula presidente do Brasil. Sem alternativas de candidatura, a direita dá a sua última cartada – utiliza das forças armadas para sustentar seu projeto de poder e melhor articular os votos da reforma da previdência e de outras pautas racistas.

Ou fazemos Palmares novamente ou morremos sob os grilhões da ditadura!